Recomendações após o Festival do Rio

Por Matteo Manes em 17 de outubro, 2015

O Festival do Rio chegou ao fim, que é sempre um momento desgostoso para os cinéfilos cariocas.

Pela primeira vez, pude realmente aproveitar o festival. Assisti nessas duas semanas a mesma quantidade de filmes que havia visto no resto do ano inteiro, quando em temporadas anteriores só fui em uma exibição do evento.

Antes de falar do filme que não sai da minha cabeça, gostaria de recomendar outros dois.

O Final da Turnê

Primeiro, o estadunidense “O Final da Turnê” de James Ponsoldt (“O Maravilhoso Agora”). O longa conta a história da entrevista feita por David Lipsky (Jesse Eisenberg) da Rolling Stone, com o escritor David Foster Wallace (Jason Segel).

A entrevista é uma conversa que continua por diversos cenários enquanto Foster Wallace faz a última parada de sua turnê do livro “Graça Infinita” (que, aliás, foi finalmente lançada no Brasil esse ano pela Companhia das Letras numa monstruosa e bela edição).

Esse fica recomendado para todos. É um filme excelente pelas discussões entre os dois personagens, e qualquer criador de conteúdo vai se encantar.

O segundo é um pouco mais excêntrico. O cinema italiano todos os anos nos dá grandes filmes pelos quais me apaixono. Ano passado, “La grande bellezza” (lançado em dezembro de 2013 no Brasil) foi minha paixão. Esse ano, acho difícil algum outro filme roubar o lugar que agora é ocupado por “Il racconto dei racconti” no meu coração.

Il racconto dei racconti

O diretor Matteo Garrone (“Gomorra”), faz sua estreia em inglês com um espetáculo de cores, fotografia e design, num mundo medieval muito menos mágico do que o esperado – mas não menos encantador.

Esse não é um filme que agradará todo mundo. Diria até que é bem polarizante, com pessoas ou se maravilhando com a obra, ou a odiando. Apesar de ser uma fantasia que lembra contos de fada, seu humor negro, erotismo, e severidade o distanciam de filmes do gênero. Talvez por isso, muitas pessoas acabam surpreendidas por ter suas expectativas frustradas.

Se você não curte obras de ritmo mais lento, ou narrativas que mudam seu foco constantemente, evite.

Mas se a história de um Rei que se importa mais com sua pulga de estimação do que de sua própria filha parece intrigante, não deixe de assistir.
 
 
A Colina Escarlate

Chegamos enfim ao último filme dessa postagem, e também o último que assisti no festival – para fechar com chave de ouro.

A Colina Escarlate” (“Crimson Peak”) é a mais nova obra de Guillermo Del Toro (“O Labirinto do Fauno”), que é um dos meus diretores preferidos. Então, não espere que eu consiga ser imparcial em minhas opiniões.

A Colina Escarlate

Cheguei na sala do cinema Odeon, no centro do Rio de Janeiro, sem saber nada sobre o que ia assistir. Eu sabia o nome, o diretor (motivo pra eu estar lá), e que se tratava de um longa de terror (o que não é verdade). Isso porque não gosto de ver nada sobre os filmes que vejo. Nenhuma imagem que não seja do poster oficial; nenhum trailer ou teaser; não leio críticas ou sinopses.

Quando chego ao cinema, gosto de ser surpreendido. Mesmo pontos específicos da história, ou cenários e fotografia, eu prefiro ter a experiência de apreciá-los pela primeira vez quando estiver de fato assistindo à obra completa.

Para muitos isso é inviável. Afinal, como vou decidir que filmes assistir se não sei nada sobre eles?

Outros não gostam de tantas surpresas.

Mas se por acaso você é como eu, digo o seguinte: assista “A Colina Escarlate” – de preferência nos cinemas. E não leia o que escrevi daqui pra frente. Apesar de eu não falar nada que a maioria das pessoas consideraria spoiler, eu não gostaria de ter essas informações antes de ter a oportunidade de experienciá-las.

A Colina Escarlate

A história é sobre Edith Cushing (Mia Wasikowska), uma jovem aspirante a autora que se apaixona por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um barão inglês que vem aos Estados Unidos com sua irmã (Jessica Chastain), em busca de financiamento para uma de suas criações. Logo os dois se casam, e Edith viaja com os irmãos Sharpe para terras britânicas.

A história é simples – até bem previsível e sem surpresas em sua última metade –, mas é extremamente bem contada. As atuação são todas excelentes, com destaque para Tom Hiddleston, que transita entre tons de ameaça, carinho e pavor com uma fluidez impressionante.

Del Toro nos apresenta uma obra belíssima, com cores vibrantes – sempre significativas, como nas roupas dos personagens – e um estilo visual fascinante que já é de se esperar de seus filmes.

“A Colina Escarlate” é extravagante ao máximo. Seu design de produção não poupa artifícios para passar as mensagens perturbadas que o diretor quer. Desde a roupa da protagonista que cresce em tamanho mostrando sua vulnerabilidade crescente ao longo do filme; até moscas mortas, salas infestadas de insetos, e um buraco enorme no teto do casarão da família Sharpe.

Casa esta que tem tantos elementos simbólicos que chegam a sufocar. A atenção aos detalhes já é marca de Del Toro, e quase tudo está ali por um motivo, mas não de maneira discreta.

Isso se mostra claramente quando o diretor prefere apresentar cada detalhe da beleza de seus fantasmas, ao invés de te deixar se perguntando o que é que assola a protagonista.

É um dos poucos filmes de terror que ainda procuram causar desconforto e ansiedade, ao invés de só ficar dando sustos no espectador. Dessa forma, é uma homenagem a um estilo raro que hoje é difícil de encontrar, mas era comum nas décadas de 50 e 60. Aliás, não é por acaso que o nome da personagem de Wasikowska é Cushing.

crimson-peak-2

Del Toro prepara seus espectadores – logo no início do filme – quando a própria personagem principal, ao entregar o rascunho de seu livro, explica ao editor que essa não é uma história de fantasmas, mas uma história com fantasmas nela.

Os monstros aqui são reflexos do passado. Eles contam histórias, são memórias que se apagam. O perigo está no presente.

E esse talvez seja o maior problema. O longa tem sido vendido como terror, mas não é exatamente o que se espera nos filmes de terror dos últimos anos. Muitos sairão decepcionados por terem expectativas erradas.

Tendo dito isso, recomendo que assista o filme nos cinemas. O espetáculo gótico merece ser visto nas telonas. “A Colina Escarlate” é uma experiência de se mergulhar em um mundo sensorial hiperbólico, de suas cores à trilha sonora. Uma atmosfera hipnotizante que não vejo a hora de poder sentir de novo.

Matteo Manes

Sobre Matteo Manes

Formado em Design e Botafoguense doente, é um dos criadores do Olingüeto e do podcast Dentro do Garrafão. Adora tomar uma cerveja, ver um filme, e debater a situação da Ucrânia.

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